Tarsila

Estávamos chegando ao meio daquele ano da década de 90, quando um amigo querido me convidou para vivenciar com ele uma aventura única: fazermos parte de uma Equipe de Arquitetos e Decoradores que restaurariam os diversos ambientes do Palácio do Governo em Campos do Jordão, o tradicional “Palácio Boa Vista”. Acedi no mesmo momento, mesmo não sendo diretamente da área, e partimos para aquela aventura que reuniu grandes profissionais e designers de todo o Brasil.

Quando chegamos, nos indicaram uma pequena sala, quase na entrada, que seria restaurada e decorada por nós, e em especial pelo meu talentoso amigo, que era e é um “expert” na área. Era a sala de atendimento a todos que procuravam o local para alguma entrevista. Alguns móveis antigos, paredes desgastadas, mas ao fundo, como uma miragem, eu avistei um grande quadro esquecido, que me atraia de uma forma incomum. Eu pensava enquanto observava aquela peça quase abandonada no meio do passado: “- Esta imagem não me é estranha…” E cada vez mais uma atração irresistível me levava e apontava na direção daquela obra.

Iniciamos nosso trabalho e no momento que peguei o grande quadro para protege-lo, vi uma grande inscrição atrás, com letras bem soltas e marcantes, explicando a referida obra. Ao final, estava uma marcante assinatura “Tarsila”. Foi então que eu percebi ter nas mãos uma das obras mais significativas da história da Arte brasileira: a obra “Operários” de 1933, pioneira da temática social do Brasil.

Foi então que busquei um pouco mais sobre aquela “virginiana” como eu, nascida em 1 de setembro de  1886, em Capivari, no interior de São Paulo, e que estudou nos melhores colégios do Brasil e da Europa.

Tarsila sempre esteve à frente do seu tempo. Casou e descasou num período em que as mulheres eram totalmente submissas. Ao perceber a sua vocação artística foi estudar com o grande Pedro Alexandrino em 1918, onde conheceu a pintora Anita Malfatti. Em 1920, foi estudar em Paris, na Académie Julien e com Émile Renard. Ficou lá até junho de 1922 e soube da Semana de Arte Moderna (que aconteceu em fevereiro de 1922) através das cartas da amiga Anita Malfatti. Namorou e casou com Oswald de Andrade e através dele conheceu e estudou com Fernand Léger, o grande mestre cubista que muito a influenciou.

Tarsila oferecia almoços bem brasileiros em seu ateliê parisiense, servindo feijoada e caipirinha. Além de linda, vestia-se com os melhores costureiros da época, como Paul Poiret e Jean Patou. Em um jantar em homenagem a Santos Dumont, vestiu um casaco vermelho e chamou a atenção de todos por sua beleza e elegância. Pintou o autoretrato ‘Manteau Rouge’ em 1923 depois desta ocasião.

Mas sua real paixão estava na temática brasileira, com as paisagens rurais e urbanas do nosso país, além da nossa fauna, flora, folclore e do nosso povo. Ela dizia que queria ser a pintora do Brasil. Além do tema e das cores, Tarsila trouxe a técnica do cubismo aprendida em Paris para os seus trabalhos.

Ainda na primórdios do século XX conseguiu como mulher e brasileira, realizar uma exposição individual em París, o que parecia quase impossível para a época.

Ao pintar “Abaporu”, talvez sua obra mais conhecida mundialmente,  Tarsila queria dar um presente de aniversário ao seu marido, Oswald de Andrade. Abaporu, significa “homem que come carne humana”, o antropófago. E foi daí que surgiu o importante “Manifesto Antropófago”, escrito por Oswald  e que foi o marco de fundação do movimento que levou o mesmo nome e mudou a Arte brasileira para sempre. A figura do Abaporu simbolizou o Movimento que queria deglutir, engolir, a cultura européia, que era a cultura vigente na época, e transformá-la em algo bem brasileiro. Valorizando o nosso país.

É interessante ressaltar que no Brasil Tarsila era rechaçada por muitos, que não compreendiam a dimensão de sua obra. Passou por muitos momentos difíceis e desafiadores e foi até de colunista de jornal nos anos 50, mas nunca deixou de valorizar e vivenciar a sua Arte.Tarsila participou da I Bienal de São Paulo em 1951, teve sala especial na VII Bienal de São Paulo, e participou da Bienal de Veneza em 1964. Ao nos deixar, em 1973, ela se eternizou através das suas obras, da sua história e da sua missão transformadora.

Estava tudo ali, naquele quadro isolado, quase perdido, numa Sala de entrada de um velho palácio governamental…

Hoje todos temos a oportunidade de conhecermos mais sobre esta incomum Artista, genuinamente brasileira, que tem sua exposição em São Paulo, com mais de 120 obras, e que viajará o mundo. Ela acontece no MASP.

Aluna da Recriarte da área de Pintura

Na RECRIARTE uma das áreas mais significativas é a área de Pintura, onde já formamos Artistas de renome e mais que isso, Artistas vocacionados. Diferentemente do que muitos imaginam, pintar é muito fácil e com um pouco de técnica, qualquer pessoa pode expressar a sua essência através dos traços e das cores. Experimente.

Gabriel Veiga Catellani
Abril 2019