QUAL A DIFERENÇA ENTRE UMA “PRODUÇÃO TEATRAL” E UMA “COMPANHIA TEATRAL”?

Postado em 12 de março de 2020

CENA COLETIVA – ESPETÁCULO “FRANCISCO DE ASSIS – O MENSAGEIRO DA ALEGRIA! DA COMPANHIA DO ATOR

Numa você entra e sai, sai e entra, para realizar um trabalho
Na outra, você constrói uma “Carreira”

Tenho percorrido a estrada da realização teatral há mais de 4 décadas, não só como Artista, como Ator, Diretor e Dramaturgo, mas também como Pedagogo da área de Artes Cênicas. É uma oportunidade muito rica  para percebermos a cada período as mudanças, a alteração de vetores e principalmente a alteração dos conceitos estruturantes que vêm tomando conta da formação artística teatral e do imaginário de muitos que se propõem a fazer Teatro.

Nestes últimos 40 anos houve um avanço significativo das mídias eletrônicas e sociais, e com elas, um avanço sem precedente nas oportunidades para aqueles que são vocacionados para as Artes Cênicas e para a Comunicação.

Hoje temos centenas de canais a cabo, temos muitas formas de divulgação direta dos talentos e do potencial de cada Artista e de cada Ator.  Hoje temos produções independentes que invadem cada vez mais o universo daqueles que começam a viver neste mundo imenso e ao mesmo tempo, como já preconizavam os visionários da mídia televisiva, finalmente formamos uma única “Aldeia Global”. Todos conectados cada vez mais nas mesmas fontes e recebendo as mesmas informações.

E com a chegada de tantas possibilidades para um Ator, o “fazer teatral” se tornou apenas mais uma das muitas possibilidades e funções que a profissão oferece. Isso sem contar a “glamurização” que a mídia digital propõe, onde cada um quando aparece para milhões de pessoas, passa de desconhecido a celebridade em minutos, porém, também com os minutos contados, até o surgimento de uma novidade mais estimulante.

Todo este movimento atingiu as Escolas de Teatro, o interesse dos Atores na direção das Artes Cênicas, e principalmente a compreensão do que significa participar de uma Companhia de Teatro ou simplesmente ser um Ator “nômade” que vive em busca da sobrevivência física  ou  artística.

Sabemos que hoje, os alunos de  um curso livre de Teatro buscam mais que uma formação artística, mas sim  um trampolim para a expressividade, para a quebra da timidez e também o lazer puro e estimulante, e porque não dizer terapêutico que uma Arte como o Teatro oferece e  produz.

O Teatro, especialmente nas fases iniciais  trabalha com  o autorreconhecimento e a autoestima. Isso é ótimo, porque através dele há uma formação de  brasileiros mais conscientes, mais “antenados”, mais informados e principalmente aptos a questionarem tudo o que encontram pela frente.

Porém, uma das tristes constatações atuais  está em percebermos  que a consciência da importância de um Ator fazer parte de um Coletivo, de uma Companhia Teatral, praticamente desapareceu.

Atores misturam a função e a proposta de uma Companhia Teatral, com a atuação sazonal em Produções, muitas vezes mercantilistas, o que não é ruim, com a riqueza e a função que uma Companhia Teatral tem no sentido de construir uma carreira.

Tenho visto e assistido há muitos Atores que quando vêm fazer suas audições para espetáculos batem no peito dizendo “tenho 20 anos de carreira”, “Fiz muita coisa até aqui”, o que sempre deve ser valorizado, é claro, porém, o que mede realmente o desenvolvimento de um Ator no palco, quando as luzes acendem,  não é o tempo em que se dedicou para uma carreira, mas o tempo que ele dedicou para aprofundar-se na sua formação e compreensão do seu Ofício, enquanto realizava a formação da referida carreira.

Se um Ator faz 20 anos de péssimas escolhas, pipocando aqui e ali, sem critério, e sem essa  consciência, fica aparente que,  após este período,  ele continuará com vícios, limitações e principalmente com a impossibilidade de realizar “voos maiores” na direção da excelência que a carreira teatral propõe para aqueles que conseguem compreender o que significa aprofundar uma formação e não só atuar para formar currículos e para sobreviver.

Sempre aconselho aos Atores que me procuram, a não mergulharem de cabeça na carreira, deixando de terem outras atividades paralelas que deem o suporte durante o período diurno semanal, para que possam fazer com tranquilidade o seu Teatro no período noturno e nos finais de semana. Muitos não concordam, outros não querem…., mas cedo ou tarde, após diversas viagens e tentativas, com raras exceções, voltam à realidade e buscam um sustento para conseguirem lastrear a realização de um trabalho artístico com base e continuidade.

Mas então, é prejudicial participarmos de produções isoladas que nos chamam para atuar? – É claro que não! É um caminho, é uma proposta e deve ser respeitada, porém, deixo claro que aqueles que se dedicam a participar de uma Companhia Teatral, especialmente aquelas que pesquisam, que aprimoram suas produções dia a dia, e que se preocupam com o seu crescimento artístico e de seus Atores, terão um desenvolvimento artístico único e farão parte do que há de melhor na realização teatral, independentemente de culturas, países ou continentes.

Os maiores Atores que conhecemos hoje, que são referência de qualidade na atuação, e que são vistos na grande mídia, que é por onde a grande massa humana mundial reconhece o Artista, são fruto de Companhias de Teatro, para as quais, dedicaram dezenas de anos de suas vidas. Nomes como: Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Nicette Bruno, Laura Cardoso, Juca de Oliveira, Marieta Severo,  Regina Casé e tantos outros grandes Atores e Atrizes,  são fruto vivo da importância de se investir numa Companhia de Teatro com o objetivo de ser um Ator diferenciado em termos de qualificação e realização artística.

Por tudo isso, se você um dia pretender fazer Teatro na prática, quer seja amador ou profissional, e não quer só realizar o Teatro como “evento”,  mas sim como “ofício”ou como fonte para seu crescimento artístico, procure uma Companhia de Teatro que tenha como foco a qualidade artística e pesquisa cênica e se dedique. Acredito que o investimento que você fará, poderá não trazer frutos financeiros momentâneos, mas futuramente na hora em que você for chamado para maiores “voos”, todo o investimento terá valido integralmente.

Numa Produção você é contratado para realizar um trabalho. Ali você entra e saí. Serve ao propósito financeiro ou artístico momentâneo no coletivo onde muitas vezes nem chega a conhecer direito os colegas, a proposta e a direção e já sai.  Já numa Companhia Teatral consciente, você faz parte do “corpo” vivo de todas as produções e resultados. Você cresce e faz a Companhia crescer, você tem desafios constantes, você é trabalhado pelos diretores artísticos sem parar e sempre tem oportunidades, ou seja, você  constrói uma “Carreira”!

                                                                                                   Gabriel Veiga Catellani – março 2020